Aula 04 – AMÓS – A JUSTIÇA SOCIAL COMO PARTE DA ADORAÇÃO



4º Trimestre_2012

Texto Básico: Amós 1:1;2:6-8;5:21-23

“Buscai o bem e não o mal, para que vivais; e assim o Senhor, o Deus dos Exércitos, estará convosco, como dizeis” (Am 5:14).

INTRODUÇÃO

O Livro de Amós é uma mensagem de advertências ao povo de Deus; é atual e oportuna. Ele ergue um grande clamor pela justiça social. Ele tira uma radiografia do presente ao analisar o passado distante de Israel nos tempos prósperos do rei Jeroboão II. Amós ataca duas grandes áreas do pecado geralmente condenadas pelos profetas:a idolatria e a injustiça social. A raiz do problema de Israel era sua falsa religiosidade. Embora Israel mantivesse as formalidades rituais da lei e até se excedesse nelas(Am 4:4,5), a idolatria era muito comum (Am 5:26; 2Rs 17:9-17), assim como a violência e a injustiça (Am 2:6-8; 4:1). Deus não tolera a idolatria, que é, na verdade, adoração a demônios(Dt 32:16,17; 1Co 10:20).

Por causa da idolatria e da injustiça social, o Senhor enviou advertências a Israel em forma de fome, sede, desgraças, gafanhotos, pragas e derrotas militares, mas o povo recusou-se a ver a mão de Deus nesses acontecimentos (Am 4:6-11). Logo, o julgamento era inevitável (Am 4:12-5:20), e a punição é retratada em uma série de profecias verbais e visionárias que predisseram a destruição total e o exílio. A mensagem do profeta é ousada e forte, mas seu coração se derrete em profunda compaixão e intercessão pelos impenitentes. Ele fala da graça que convida a todos para uma volta a Deus, em vez de uma entrega irrefletida à religiosidade sem doutrina e sem vida. Ele alerta o povo que se preparem para o encontro com Deus (Am 4:12). Justiça e retidão, esses são os elementos importantes que devem fazer parte do caráter daqueles que são verdadeiros adoradores a Deus. Amós deixa claro que Deus procura adoradores, e não adoração (Am 5:23,24; João 4:24). Ele se interessa mais por caráter do que por carisma.

I. O LIVRO DE AMÓS

1.Contexto histórico. Amós viveu dias de grande prosperidade no Reino do Norte, na época, governado por Jeroboão II. Esse monarca obteve sucessivas vitórias contra seus vizinhos hostis de Israel, e com isso, obteve o controle das rotas comerciais que levavam riqueza a Samaria, a capital do Reino do Norte. "A terra era fértil, as chuvas caíam regularmente e os silos estavam abarrotados de grãos. Nesses anos dourados, foram erguidos majestosos prédios públicos, os ricos construíam espaçosas residências próximas aos centros litúrgicos populares, em Betel e Dã, onde podiam usufruir rituais esplêndidos que satisfaziam seus anseios pela pompa e ostentação. Todavia, por trás da superfície brilhante da sociedade, escondiam-se tragédias terríveis" (Guia do leitor da Bíblia, CPAD, pg. 536).

Muitos se enriqueceram por meio da violência e rapina; pela opressão dos pobres e necessitados (Am 3:10). Credores sem remorso vendiam os pobres como escravos (Am 2:6-8). Usavam balanças enganosas e vendiam aos pobres o refugo do trigo por um peso menor, mas por um preço maior. Os juízes aceitavam dinheiro dos ricos para tomarem decisões injustas nas contendas legais contra os pobres (Am 5:12). As mulheres se mostravam tão duras e tão gananciosas e cruéis quanto os homens. Exigiam dos maridos que oprimissem os pobres e os necessitados para adquirirem os meios de satisfazer a sua vontade (Am 4:1).

Não havia restrição para a prática da injustiça (Am 8:5). Desprezavam os mais nobres sentimentos humanos (Am 2:8). Não toleravam ser repreendidos (Am 5:10). Na busca insaciável da riqueza, os ricos se mostravam insensíveis à ruína do país (Am 6:6). Ufanavam-se de seu poder e autoridade e ficavam sossegados sem pensar na possibilidade do julgamento vindouro (Am 6:1,13).

É contra esse cenário degradante que lemos as palavras de Amós, um fazendeiro das cercanias de Judá que, inesperadamente, fora chamado por Deus para ir a Israel e condenar a injustiça e a apostasia desta nação.

Amós profetizou no período mais próspero dos reinos do Norte e do Sul. Em Judá, o rei Uzias fazia um longo governo de 52 anos, ou seja, de aproximadamente 790 até cerca de 740 a.C. e, em Israel, o reino do Norte, Jeroboão II, por 41 anos, fazia o mais extenso e o mais bem-sucedido governo de Israel, entre 793 a 753 a.C.

Aproximadamente 30 ou 40 anos após a profecia de Amós, a Assíria destruiu a capital de Israel, Samaria, e conquistou o Reino do Norte (722 a.C).

2. Vida pessoal. Amós significa "aquele que carrega fardos" ou "carregador de fardos". O livro contém muitos fardos de julgamentos ou calamidades que o profeta transmitiu a Israel. Amós não era procedente da classe rica e aristocrática, empoleirada no poder, mas oriundo das toscas montanhas de Tecoa, aldeia incrustada nas regiões mais altas da Judéia. Segundo alguns estudiosos, Tecoa ficava nove quilômetros ao sul de Belém. Foi um dos lugares fortificados por Roboão para a proteção de Jerusalém (2Cr 11:6). Com a elevação de 920 metros, servia de lugar para tocar trombeta, e assim transmitir sinais e anúncios ao povo (Jr 6:1).

Amós era pastor de ovelhas e agricultor (Am 1:1), homem de caráter robusto, de voz retumbante, de profundo conhecimento da realidade do mundo ao seu redor. Embora nunca tivesse desfrutado as vantagens de uma educação formal numa "escola de profetas'', tinha absoluta convicção do seu chamado profético. Ao receber sua vocação da parte de Deus, deixou seu lar em Judá, como mero leigo, proclamando, na orgulhosa capital do Reino do Norte, uma mensagem clara e ríspida vinda do próprio Deus. Sem qualquer título oficial de profeta reconhecido, enfrentou os preconceitos do público em Efraim (Am 7:10-17), sem desviar-se do seu propósito. Seu senso de vocação lhe deu firmeza nas provas.

3. Estrutura e mensagem.

a) Estrutura. O Livro de Amós divide-se, de modo natural em três seções:

a.1) Na Primeira seção (Am 1:3-2:16), o profeta dirige primeiramente sua mensagem de condenação a sete nações vizinhas de Israel, inclusive Judá. Tendo levado Israel a aceitar prazerosamente o castigo desses povos (Am 1:3-2:5), Amós passa a descrever vividamente os pecados da nação eleita e a punição que lhe estaca reservada (Am 2:6-16). Esta seção determina o tom da mensagem do livro: a condenação resultará na destruição e exílio da nação israelita.

a.2) A segunda seção (Am 3:1-6:14) registra três mensagem ousadas, iniciando cada uma delas com a expressão: “ouvi esta palavra” (Am 3:1-4:1;5:1). Na primeira, Deus julga Israel como um povo privilegiado, a quem Ele livrara do Egito: “De todas as famílias da terra a vós somente conheci; portanto, todas as vossas injustiças visitarei sobre vós” (Am 3:2). A segunda mensagem começa tratando as mulheres ricas de Israel de “vacas de Basã...que oprimis os pobres, que quebrantais os necessitados, que dizei a seus senhores: daí cá, e bebamos” (Am 4:1). Amós profetiza que elas seriam levadas ao cativeiro com anzóis de pesca, como o justo juízo de Deus requeria (Am 4:2,3). Amós tem palavras semelhantes para os mercadores desonestos, e os governantes corruptos, os advogados e juizes oportunistas e os sacerdotes e profetas prevaricadores. A terceira mensagem (Am 5 e 6) alista as abominações de Israel. Amós, pois, conclama o povo ao arrependimento: “Ai dos que repousam em Sião” (Am 6:1), pois a ruína estava prestes a se abater sobre eles.

a.3) A última seção (Am 7:1-9:10) registra cinco visões de Amós a respeito do juízo divino. A quarta visão descreve Israel como um cesto de frutos em franco estado de putrefação. O juízo divino já se fazia arder (Am 8:1-14). A visão final mostra Deus em pé ao lado do altar, pronto a ferir Samaria e o reino decadente do qual era ela capital (Am 9:1-10). O livro termina com breve, porém poderosa, promessa de restauração ao remanescente (Am 9:11-15)(Fonte: BEP).

b) Mensagem. Amós faz uma radiografia da sociedade israelita, uma diagnose da nação. Ele põe o dedo na ferida e brada com sua retumbante voz denunciando os pecados do povo de Israel, bem como das nações vizinhas. As nações circunvizinhas, uma a uma, são chamadas à barra do tribunal de Deus para responderem por suas atrocidades - O profeta Amós demonstra uma profunda convicção de que Deus governa não apenas seu povo, mas, também, as nações.

A mensagem de Amós toca nos mais intrincados problemas da ordem política, social, econômica, moral e espiritual do seu tempo. Ele ataca com veemência a política externa governada pela ganância insaciável e pelo ódio desmesurado que oprime os que não podem oferecer nenhuma resistência. Ele atinge com sua mensagem os endinheirados embriagados pela soberba, que viviam nababescamente, enquanto os pobres explorados por eles amargavam uma dolorosa realidade. Amós não poupa aqueles que se entregavam aos prazeres desregrados, tapando os ouvidos à voz da própria consciência. O profeta boiadeiro alerta para o fato de que, onde a voz da graça de Deus não é ouvida, a trombeta do juízo é tocada irremediavelmente.

Observe que Amós não se dirigiu pessoalmente a Jeroboão II. Não há nenhum apelo direto ao rei para ouvir sua mensagem. Amós dirigiu-se ao povo de Israel (Am 2:10-12; 3:11). Dirigiu uma palavra forte às mães e às matronas que exigiam o melhor dos alimentos e mobiliário, com sacrifício dos pobres (Am 4:1). De modo semelhante, fala aos pais que levavam seus filhos à flagrante idolatria (Am 2:7b), aos fazendeiros (Am 4:7-9; 5:l6b,17), aos soldados (Am 5:3), aos juízes (Am 5:7), aos homens de negócios (Am 5:11; 8:4-6), aos adoradores (Am 5:21-23), aos líderes de Samaria (Am 6:1-7), a Amazias, o sacerdote em Betel (Am 7:14-17), aos homens e às mulheres jovens (Am 8:13). A última interpelação direta é a todo o povo de Deus (Am 9:7).

A mensagem do livro é também uma mensagem de esperança. Sua promessa de restaurar “a tenda de Davi” - esta frase refere-se as doze tribos de Israel, que viverão sob o governo do Messias (Am 9:11) -, e o futuro decisivo do seu povo são retratados em uma descrição final que se assemelha ao Éden em sua fertilidade e bênçãos (Am 9:13-15). Aqui, Amós profetiza acerca de uma terra transformada e gloriosa, onde o povo de Deus poderá continuamente plantar e colher ao mesmo tempo. A terra será abundantemente produtiva, e as bênçãos divinas jamais hão de terminar. A nação de Israel (as doze tribos) será finalmente restabelecida ao Senhor, e nunca mais o abandonará. Em fim, os israelitas permanecerão seguros na sua terra.


II. POLÍTICA E JUSTIÇA SOCIAL

A profecia exerceu um papel fundamental na esfera política e social do povo de Israel. Os profetas como emissários de Deus, tomavam parte ativa na sociedade e na política. Suas profecias tinham não somente uma função política, mas também eram importantes para a manutenção da ordem social. À medida que o tempo foi passando, os profetas foram ficando à margem da sociedade, pelo fato de os reis aos poucos afastarem-se de Deus e detestarem ouvir as palavras do Senhor(cf Jr 36:21-23). Amazias, o sacerdote, tentou silenciar o profeta Amós (cf Am 7:12,13). Ainda assim, Deus utilizou seus servos para clamarem por justiça.

1. Política. “É o conjunto de práticas relativo ao Estado ou a uma sociedade”. A política é algo que está presente em qualquer grupo humano. O próprio Deus, quando criou o homem, afirmou que ele deveria dominar sobre o restante da criação (Gn 1:26), bem como, no jardim onde o colocou, disse que ele deveria guardá-lo (Gn 2:15), numa clara demonstração que a natureza humana envolvia o exercício do poder, consequência do próprio livre-arbítrio de que ele era dotado. Ora, toda relação de poder é uma relação política e, neste sentido, certíssimo estava Aristóteles, o grande filósofo grego, ao afirmar que o homem é um animal político.

Após o dilúvio, Deus renovou o pacto com o gênero humano e nele foi mantido o papel de domínio e de poder sobre o restante da criação (Gn 9:2), ainda que bem demonstrada a limitação da autoridade humana, como se lê em Gn 9:5,6. Não tardou muito e surgiu o primeiro grande dominador do povo (Ninrode-Gn 10:8,9) e o governo humano apresentou-se desafiador contra Deus, a ponto de o Senhor ter destruído aquela comunidade política única por meio do juízo de Babel (Gn 11:7-9). Bem se vê, portanto, que a existência de governo, de poder, de domínio, de política não é algo contrário à ordenação divina, mas, sim, seu mau exercício.

Em Israel, muitos foram os lideres, cujos governos causaram a ruína do povo. Amós presenciou isso bem de perto. Não haja dúvida que o governo de Jeroboão II foi um tempo de prosperidade material. Seu governo alcançou o apogeu econômico. Todavia, foi um tempo de corrupção moral e espiritual. A idolatria havia sido sancionada pelo Estado e misturada à própria adoração. Os pobres estavam sendo oprimidos (Am 2:7,8; 3:9). A justiça estava sendo pervertida (Am 2:7; 5:7). A corrupção estava presente desde o palácio até o santuário. O sacerdote Amazias, que representava o povo e especialmente os lideres, rejeitou abertamente o profeta de Deus e sua mensagem (cf Am 7:12-17). Prosperidade material não é garantia da aprovação de Deus nem evidência de religião pura.

2. A justiça social. Justiça social “é o conjunto de ações sociais estabelecido na sociedade para suprimir as injustiças de todos os níveis”. Justiça e retidão têm mais valor aos olhos de Deus do que rituais religiosos. A prática religiosa sem vida transformada não pode agradar a Deus. Obediência é mais importante do que sacrifício. Ninguém pode provar seu amor por Deus sem amar o próximo.

Amós diz que Deus está mais interessado que a justiça prevaleça nas ruas do que as músicas sacras sejam entoadas nos templos. Com respeito à justiça, Amós fala de abundância (“corra como águas”) e de eternidade (“como ribeiro perene”). Os ribeiros na Palestina correm impetuosamente no tempo das chuvas, mas, nos períodos da seca, eles ficam fraquinhos, ou sem água alguma. O Senhor pede a justiça constante e perene. A religião sem essas qualidades de retidão e de justiça não é a religião bíblica. A religião bíblica é vigorosa, constante e fiel.

Amós sabia que a religião não pode ter apenas uma relação vertical. Ela passa também pela relação horizontal. Ele quer justiça social entre pessoa humano e pessoa humana. Toda sua mensagem serve como prelúdio para a definição que Tiago dá da verdadeira religião: "A religião pura e imaculada diante de nosso Deus e Pai é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas aflições e guardar-se isento da corrupção do mundo" (Tg 1:27).

3. O pecado. O pecado é o opróbrio das nações (Pv 14:34). Antes de uma nação cair nas mãos do inimigo invasor, ela cai pelas suas próprias transgressões. O profeta disse para essa nação: "Volta, ó Israel, para o Senhor teu Deus; porque pela tua iniquidade tens caído" (Os 14:1). Israel havia transgredido a lei de Deus e deixado de viver de acordo com Sua aliança. A primeira tábua da lei referia-se ao relacionamento do povo com Deus, e a segunda, aos relacionamentos de uns com os outros, e Israel havia se rebelado contra todas essas leis. Não amavam a Deus e não amavam a seu próximo. Um dos terríveis pecados cometidos pela nação de Israel (Reino do Norte), que a levaram à ruína foi a opressão ao pobre, amar mais a injustiça do que a misericórdia (Am 8:4). A cobiça insaciável levou a classe rica de Israel a praticar crimes horrendos debaixo das barbas do rei, com a ajuda de juízes corruptos, sem nenhuma condenação dos sacerdotes. Os ricos tinham ódio do necessitado e destruíam os miseráveis da terra. Eles tinham uma atitude predatória e insensível para com as pessoas desamparadas (Am 8:4,6). Se pudessem, eles engoliriam os necessitados e os exterminariam (Am 2:6,7). A desumanidade deles provocou a ira de Deus e o colapso da nação, pois quem não exerce misericórdia não pode receber misericórdia. A religião sem o exercício da misericórdia é vã (Tg 1:27). A fé sem as obras é morta (Tg 2:14-17).

III. INJUSTIÇA SOCIAL

Amós foi o único profeta do Reino do Norte a bradar energicamente contra as injustiças sócias. Ele denunciou os pecados de opressão e de injustiça social das nações ao redor de Israel, bem como os desmandos morais de seu povo. Ele denunciou a corrupção no palácio e nas altas cortes do judiciário. Ele diagnosticou os males que destruíram a nação nos centros econômicos da nação, nas mansões dos endinheirados, bem como nos templos religiosos. Ele pôs o dedo na ferida da nação e alertou para a necessidade urgente de arrependimento tanto nas praças de negócios quanto nos altares religiosos.

Israel estava vivendo o apogeu da sua vida política e econômica. Jeroboão II tinha alcançado suas mais esplêndidas vitórias. A aristocracia vivia em berço de ouro. Os ricos estavam cada vez mais opulentos. Todavia, enquanto os palácios se enchiam de bens, os pobres amargavam a mais extrema pobreza e miséria. A riqueza da nação ia para os cofres de uma pequena minoria privilegiada enquanto a maioria do povo vivia esmagada pela mais aviltante miséria. O país estava se enriquecendo, mas não com justiça social.

O profeta Amós combateu com veemência o mau governo de Jeroboão II (Am 7:10-14). Em seu governo, a exploração e a injustiça campeavam. Os ricos entesouravam suas riquezas colossais, tomadas dos pobres indefesos. Nenhuma palavra era dada nem qualquer esforço era feito para coibir essa prática nem mesmo para punir os criminosos. A Bíblia diz, entretanto, que toda autoridade é instituída por Deus para promover o bem e coibir o mal (Rm 13:1-7). Quando o governo se cala diante dos desmandos e das injustiças sociais ou se corrompe, fazendo parte de esquemas criminosos para assaltar os indefesos, a nação dá claros sinais de sua decadência moral. Pior do que isso, esse monarca estabeleceu altares idólatras em Dã e Betel, especialmente para competir com o Templo de Jerusalém. Betel, assim, não era mais a casa do Rei dos reis, mas apenas um lugar para a bajulação de um rei ímpio. A religião de Israel era eminentemente humanista. Tinha sua origem no homem e era voltada para o homem. Deus fora excluído da religião em Betel. Quando a religião cala sua voz e deixa de tocar a trombeta de Deus, denunciando o pecado, quer no palácio quer na choupana, ela mesma se coloca debaixo do juízo divino.

Deus não está distante das práticas sociais de seus filhos, e não se agrada quando seu próprio povo deixa de aplicar a misericórdia para agirem como mercenários. Deus se importa com a justiça social sim, pois de nada adianta uma pessoa dizer que serve a Deus e praticar coisas indevidas para um servo de Deus, como mal tratamento de seus irmãos ou o descaso para com as necessidades deles. Não há dualidade na vida cristã, ou seja, um crente não pode ser uma pessoa na igreja e outra fora da igreja. Ele deve ser a mesma pessoa em todas as ocasiões.

Não resta dúvida de que a situação atual de crescente desigualdade social, de cada vez mais intensa injustiça social em todas as nações, até mesmo nos países desenvolvidos, é resultado direto de uma situação pecaminosa. Pecado é iniquidade (1João 3:4) e, portanto, onde abunda o pecado, abunda, necessariamente, um estado de injustiça, inclusive na sociedade, como, aliás, denunciou gravemente o profeta Amós no Reino do Norte (cf Am 2:6,7; 4:1; 5:11; 8:4,6).

IV. A VERDADEIRA ADORAÇÃO


- A adoração corrompida e a idolatria estão entre as causas principais da manifestação do julgamento divino(veja 2Rs 17:7-20; 2Cr 26:16-20; Is 1:11-17; Am 4:4-11). Há sempre o perigo de trazermos um “fogo estranho” diante do altar e trono do Senhor(Lv 10:1-2) e contra o mesmo devemos estar sempre em guarda. Não apenas a adoração a falsos deuses é proibida nas Escrituras, mas também a adoração ao verdadeiro Deus com uma atitude errada(veja Ml 1:7-10; Is 1:11-15; Os 6:4-6; Am 5:21). Em Levitico 10 temos o registro não apenas da morte de Nadabe e Abiu, mas também somos instruídos sobre o fato de que o “fogo estranho” que eles trouxeram perante o Senhor consistia naquilo que era contrário aos mandamentos divinos quanto à adoração. Paulo repreendeu os cristãos de Corinto porque eles não se ajuntavam “para melhor, e sim para pior”(1Co 11:17), e o mesmo fez Amós com a nação de Israel(Am 4:4).

- Amós denuncia com veemência o sincretismo religioso (Am 4:4,5). Israel substituiu a verdadeira adoração a Deus por práticas sincréticas. O culto foi paganizado. A idolatria foi assimilada no culto. O povo queria chegar até Deus por meio de um ídolo. Houve uma mistura do culto cananita (adoração do bezerro) com o culto ao Senhor. A religião israelita tornou-se sincrética.

Os sacrifícios que eles traziam eram impuros, pois ofereciam coisas com fermento no altar, o que era proibido por Deus (Lv 2.11; 6.17). Deus não quer sacrifício, Ele requer obediência (1Sm 15:22,23). Não podemos sacrificar a verdade para atrair as pessoas à igreja, nem podemos acrescentar coisa alguma aos preceitos de Deus porque gostamos dessas coisas. O pragmatismo se interessa peio que dá certo, e não pelo que é certo; ele busca o que dá resultados, e não o que é verdade; ele tem como objetivo agradar o homem, e não a Deus.

Hoje vemos florescer o sincretismo religioso. Práticas pagãs são assimiladas nas igrejas para atrair as pessoas. Cerimônias e ritos totalmente estranhos à Palavra de Deus são introduzidos no culto para agradar o gosto dos adoradores. O sincretismo está na moda. Mas, ele ainda continua provocando a ira de Deus.

- A verdadeira adoração a Deus foi substituída pelo ritualismo acintoso (Am 4:4,5). A expressão externa do culto era meticulosamente observada. As aparências indicavam que Israel passava por um reavivamento espiritual. Multidões se dirigiam aos lugares sagrados (Am 5:5), levando sacrifícios e dízimos (Am 4:4; 5:21,22) e até entoando cânticos de louvor ao Senhor (Am 5:23; 6:5; 8:3,10). Eles ofereciam sacrifícios com mais frequência do que era requerido pela lei, como se quisessem provar o quanto eram espirituais. Pensavam que Deus se agradava de seus ritos ao mesmo tempo em que andavam em escandalosas práticas de pecado. Mas Deus, que sonda as intenções, via em todos aqueles rituais sagrados apenas a multiplicação das transgressões.

Os que professam ser salvos, e demonstram adorar ao Senhor, inclusive com suas ofertas, mas continuam a amar os prazeres do mundo, são uma abominação ao Senhor. Deus aceita somente a adoração e devoção dos que o amam, e porfiam por trilhar seus caminhos.

Oferta sem vida é abominação para Deus. Primeiro, apresentamos a vida no altar, depois, trazemos nossa oferta. Se Deus rejeitar a vida, Ele não aceita a oferta. Deus rejeitou Caim e sua oferta. Deus rejeitou os filhos de Eli e, por isso, a arca da aliança foi roubada. Deus rejeitou o povo de Judá e, por isso, disse que estava cansado do culto deles. Deus rejeitou os sacerdotes do pós-cativeiro e, por isso, disse que eles estavam acendendo o fogo inutilmente em sua casa.

Ainda hoje muitos pensam que as observâncias externas são as coisas mais importantes da religião. Há muito cuidado com a tradição, e pouco zelo com a verdade. Há muita preocupação com a forma, e quase nenhuma com a motivação. Contudo, essas exterioridades são meios, e não fins. Se elas vieram separadas de um coração penitente e contrito, são meios de condenação, e não de salvação.

- O profeta Amós se dirige aos peregrinos de forma irônica: "Vinde a Betel, e transgredi; a Gilgal, e multiplicai as transgressões..." (Am 4:4). Amós zomba do convite à peregrinação, do hino que os peregrinos cantam enquanto caminham: “Vinde a Betel”; ele zomba de seus propósitos, dizendo-lhes que o resultado do exercício será apenas a transgressão multiplicada pela transgressão; ele zomba da meticulosidade ritualista deles nos sacrifícios e nos dízimos. Quanto mais religiosos eles se tornavam, mais longe de Deus andavam. Quanto mais egocêntricos, mais afastados da graça. Quanto mais zelosos em seus ritos, mais prisioneiros de seus pecados.

· Betel significa "Casa de Deus", lugar de encontro com Deus e de transformação de vida. Aquele era um lugar muito especial para o povo judeu por causa de sua relação com Abraão (Gn 12:8; 13:3) e com Jacó (Gn 28:10-22; 35:1-7). Mas agora Betel era o "santuário do rei", onde Amazias, o sacerdote, servia (Am 7:10-17). Eles vinham a Betel para pecar. Vinham para transgredir. Eles frequentavam o templo, mas não adoravam a Deus. Eles traziam ofertas, mas não o coração. Hoje, semelhantemente, há um batalhão de gente na igreja sem conversão. Quem não é santo, não é salvo. Deus nos salva do pecado, e não no pecado (1João 2:3; 3:6,9; 5:18).

· Gilgal significa o lugar da posse da bênção, o lugar da conquista e da vitória. Todavia, eles vinham a Gilgal e voltavam vazios, derrotados pelos seus pecados. Eles só vinham para multiplicar as suas transgressões. Isso acontece também hoje: muitas pessoas estão na igreja, mas caminham para a morte.

- A motivação do culto em Betel e em Gilgal não era glorificar a Deus, mas agradar a eles mesmos. A verdadeira adoração a Deus foi substituída pelo movimento humanista (Am 4:4,5). A religião não era uma expressão de adoração, mas de auto-gratificação. A religião não era um meio de se humilharem diante do Todo-poderoso, mas de satisfazer sua própria vaidade carnal. Eles oprimiam os pobres e bebiam vinho porque gostavam disso. Eles iam ao templo não para buscar a Deus, mas porque gostavam disso. Seus ritos e seus sacrifícios eram apresentados não a Deus, mas a eles mesmos. Era um culto humanista, em que jamais eram confrontados a mudar de vida. Suas apresentações musicais se tornaram cânticos fúnebres (Am 5:23; 8:3,10).

Portanto, a verdadeira adoração a Deus não é a observância meramente formal da liturgia religiosa: é o “ouvir” e o “praticar” a vontade de Deus; consiste no espírito quebrantado e num coração contrito. Deus exige de seu povo verdadeira adoração.

CONCLUSÃO

Em Amós, vemos que Deus observa a vida do homem em todos os seus aspectos e que somente a libertação do pecado pode proporcionar paz, segurança, justiça e verdadeira igualdade social. Em Amós, nota-se a necessidade de Alguém que venha tirar o pecado do mundo para que haja a tão almejada época de justiça e paz na humanidade. Esse Alguém é Jesus Cristo. “Vem, Senhor Jesus!”.

Elaboração: Luciano de Paula Lourenço – Prof. EBD – Assembléia de Deus – Ministério Bela Vista. Disponível no Blog: http://luloure.blogspot.com
Referências Bibliográficas:
William Macdonald – Comentário Bíblico popular (Antigo Testamento).
Bíblia de Estudo Pentecostal.
Bíblia de estudo – Aplicação Pessoal.
O Novo Dicionário da Bíblia – J.D.DOUGLAS.
Comentário Bíblico NVI – EDITORA VIDA.
Revista Ensinador Cristão – nº 52 – CPAD.
A Teologia do Antigo Testamento – Roy B.Zuck.
Comentário Bíblico Beacon, v.5 – CPAD.
Amos (um clamor pela justiça social) – Rev.Hernandes Dias Lopes.